Há muito tempo o meu querido avô chamou-me para me contar um segredo: queria que eu soubesse que a maior riqueza do mundo não está no ouro, no dinheiro nem no petróleo. Para ele o bem maior era a terra. E disse-me isso, com toda a convicção, com um punhado dela espalhado na mão suja, como quem me transmitia uma herança real.
Claro que enquanto adolescente estouvada, na altura não percebi grande coisa e passaram muito anos sem que me lembrasse mais disto. Cresci sem me tornar grande patriota: amo a minha gente mas são mais as vezes que me envergonho do meu país…
Acontece que tive o privilégio de conhecer um povo que, sem saber nada desta minha história, me convidou a redescobrir nas entranhas este ensinamento do meu avô. Um povo que há mais de trinta anos se vê privado da sua terra que tanto ama, sem nunca perder a esperança de a ela regressar para construir um país azul. Um povo que sem ter nada cuida de cada um com a convicção de que todos serão necessários e determinantes para a concretização desse sonho. Um povo que se dispõe a correr sobre um campo minado de bandeira na mão, gritando “Sahara livre”, nas barbas de um inimigo covarde que se esconde atrás de um muro que todos nós, por cumplicidade, ajudamos todos os dias a engordar.
Depois de dez dias no deserto, quando atravessei a ponte que liga Ayamonte a Vila Real de Santo António e vi o estuário do rio, o mar ao fundo e o verde por todo o lado, finalmente percebi. Foram precisos trinta e três anos e a ajuda de um dos povos mais ricos do mundo. Foi preciso conhecer presidentes e ouvir torturados. Foi preciso comer pó e ter muita sede. Mas encardida até aos ossos, cansada de morte e com saudades de casa, finalmente percebi.
08 abril 2010
09 março 2010
Ecumenismo
A lua lá no céu
A neve na montanha
A música do grilo
O salto do macaco
A cor azul, a cor laranja
O peixe no rio
O olhar da criança
A brincadeira do dia e da noite
O revezar da lua com o sol
O sorriso que está no rosto
O trabalho, o ócio
O nascer do dia, o sol posto
As mil e uma estrelas
Que iluminam o caminho
A mente consciente
A linda donzela
Vestida de linho
Que quando passa tudo pára
A flor que sobressai
Nos campos verdejantes
O frio e o quente
A chuva que cai, cai
Nos campos verdejantes
Equilibra o ambiente
Tudo, tudo vem de Jah
25 fevereiro 2010
Help the aged
One time they were just like you, drinking, smoking…
And if you look very hard behind the lines upon their face you may see where you are headed and it's such a lonely place…Teach you stuff although he's looking rough.
In the meantime we try to forget that nothing lasts forever. No big deal so give us all a feel. Funny how it all falls away.
When did you first realise? You can dye your hair but it's the one thing you can't change: can't run away from yourself...
(a partir de "Help The Aged", Pulp)
And if you look very hard behind the lines upon their face you may see where you are headed and it's such a lonely place…Teach you stuff although he's looking rough.
In the meantime we try to forget that nothing lasts forever. No big deal so give us all a feel. Funny how it all falls away.
When did you first realise? You can dye your hair but it's the one thing you can't change: can't run away from yourself...
(a partir de "Help The Aged", Pulp)
21 fevereiro 2010
Eu sou a que no mundo anda perdidaEu sou a que na vida não tem norte
Sou a irmã do sonho e desta sorte (…)
Sombra de névoa ténue e esvaecida
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
(Florbela Espanca)
Balada de um estranho
Hoje acordaste de uma forma diferente dos outros diassentes-te estranho tens as mãos húmidas e frias
tentas lembrar-te de algum pesadelo mas o esforço é em vão
parece-te ouvir passos dentro de casa mas não sabes de quem são
Deixas o quarto e vais a sala espreitar atrás do sofá
mas aí tu já suspeitas que os fantasmas não estão la
vais a janela e ao olhares pra fora sentes que perdeste o teu centro
e de repente descobres que chegou a hora de olhares para dentro
Vês o teu nome escrito num envelope que rasgas nervosamente
tu já tinhas lido essa carta antecipadamente
e os teus olhos ignoram as letras e fixam as entrelinhas
e exclamas: "mas afinal... estas palavras são minhas!"
O caminho para trás está vedado e tens um muro a tua frente
quando olhas para os lados vês a mobília indiferente
e abandonas essa casa onde sentiste o chão a fugir
arquitectas outra morada, mas sabes que estas a mentir.
Porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto
qualquer coisa que te impede de te veres ao espelho nu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu
(Jorge Palma)
19 fevereiro 2010
As salaam alaykum

Se a ti, senhor, venho com todo o respeito, seguramente a questão não é o medo.
Onde acabam os teus começam os meus direitos, não os subestimes que eu também tenho um ego. Olhas para mim com iniquidade… Tem cabimento alguém ignorar a minha existência?
Senhor dos ismos deixa lá isso: não é actual, o teu mundo foi ontem. Tu estás perdido, não faz sentido desrespeitar a liberdade do homem
Não reina a paz onde não houver justiça
Não reina a paz onde os homens não são iguais
Não há sossego enquanto houver rejeição
É chegado o momento de agir com prudência
É chegado o momento de encontrar uma solução
Analisem, opressão não prospera
Analisem, imposição não coopera
(a partir de “Senhor dos ismos”, de Prince Wadada, in Natty Congo)
05 janeiro 2010
NOBODY'S BIZNESS no Maxime
16 setembro 2009
Auto retratos na Mouraria
Com inspiração na já extinta figura do fotógrafo ambulante, os habitantes, trabalhadores e visitantes do bairro da Mouraria foram convidados pelo fotógrafo Carlos Morganho a participarem nesta colecção de auto-retratos.
A grande diferença em relação a essa tradição perdida é que foram essas pessoas a disparar a máquina fotográfica (através de um mecanismo de controlo remoto), transformando assim cada fotografia num auto-retrato inteiramente livre e ao seu gosto.
Este modo de fotografar, apesar de pouco convencional (os fotógrafos gostam de ser eles a escolher o momento em que disparam a máquina, o seu “instante decisivo”), suscitou alguns desafios interessantes: por um lado a criação de um inesperado jogo de troca de papéis entre o fotógrafo e a pessoa fotografada, fomentando a sua participação e transformando-a simultaneamente em modelo e fotógrafo; por outro lado, dará a percepção de como as pessoas projectam a sua imagem exterior, através das “poses” e expressões que escolhem.
A intervenção do autor limitou-se ao enquadramento (procurando garantir a homogeneidade do painel) e à escolha final das fotografias a serem exibidas.
Por isso mesmo isto é um projecto de TODOS os que participaram e impossível de concretizar sem a sua colaboração. Obrigado!
A grande diferença em relação a essa tradição perdida é que foram essas pessoas a disparar a máquina fotográfica (através de um mecanismo de controlo remoto), transformando assim cada fotografia num auto-retrato inteiramente livre e ao seu gosto.
Este modo de fotografar, apesar de pouco convencional (os fotógrafos gostam de ser eles a escolher o momento em que disparam a máquina, o seu “instante decisivo”), suscitou alguns desafios interessantes: por um lado a criação de um inesperado jogo de troca de papéis entre o fotógrafo e a pessoa fotografada, fomentando a sua participação e transformando-a simultaneamente em modelo e fotógrafo; por outro lado, dará a percepção de como as pessoas projectam a sua imagem exterior, através das “poses” e expressões que escolhem.
A intervenção do autor limitou-se ao enquadramento (procurando garantir a homogeneidade do painel) e à escolha final das fotografias a serem exibidas.
Por isso mesmo isto é um projecto de TODOS os que participaram e impossível de concretizar sem a sua colaboração. Obrigado!
Lona gigante no Martim Moniz
Photomaton no Arquivo Fotográfico
15 julho 2009
Jabe Izan Arte

Em qualquer lugar do planeta a solidariedade entre as nações e a união das pessoas é imprescindível ao nosso caminho. Levantando os punhos, incendiando a esperança, recuperemos o que nos pertence até sermos donos de nós mesmos. As correntes que, ano após ano, têm prendido os povos sem estado e os sem terra será fundida e não esqueceremos os nosso irmãos que trabalham no grande campo mundial, porque quando um pedaço de terra é libertado, em certa medida, também se liberta o nosso. (a partir de Betagarri).
31 março 2009
Minha senhora da solidão

Minha senhora da solidão, minha senhora das dores, quanto tempo falta para te ver sorrir? Quantas misérias ainda vais exibir? Quanto tempo mais vou ter de te ouvir queixar? Vê como o sol brilha hoje! Odeio ver-te de luto, gostava de ver o teu olhar enxuto, de descobrir alguma graça no teu andar.
Minha senhora da solidão, minha senhora dos prantos, tens um "ai" encravado na boca que dia após dia te sufoca. Precisas muito mais que uma simples oração.
Minha senhora da solidão, minha senhora das culpas, tenho que evitar o teu contágio. Não quero saber mais do teu naufrágio: a praia teve sempre ao alcance da tua mão.
O teu crucifixo não me ilumina e o teu sacrifício não me pode fazer bem, não é bom para ninguém, não ajudas ninguém...
(a partir de Jorge Palma)
23 março 2009
Mouraria II
20 março 2009
Mouraria
17 março 2009
Em cima do prato ou…

Debaixo dos caracóis dos teus cabelos uma história para contar de um mundo tão distante.
As luzes e o colorido que agora vês, as ruas por onde andas, a casa onde moras, a tarde tristonha, nada te faz ficar contente. No teu peito, uma saudade e um sonho.
Um dia, os teus pés irão pisar a areia branca, a água azul do mar vai molhar os teus cabelos e as janelas vão abrir-se para te ver chegar. Eu vou ver o sorriso dessa chegada ao paraíso de areia branca, esse regresso a casa, à tua gente e tu, sorrindo, vais chorar: um soluço e a vontade de ficar mais um instante. ( a partir de “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” - Caetano Veloso)
23 fevereiro 2009
O Verbo

No princípio era o Verbo; o Verbo estava em Deus e e o Verbo era Deus. No princípio Ele estava em Deus. Por Ele é que tudo começou a existir e (...) nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevasmas as trevas não a receberam: apareceu um homem, enviado por Deus, que (...) vinha para dar testemunho da Luz (...). Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz. O Verbo era a Luz verdadeira (...). Ele estava no mundo (...) mas o mundo não o reconheceu. (...) E o Verbo fez-se homem (...). (Jo, 1)
19 fevereiro 2009
18 fevereiro 2009
10 fevereiro 2009
Man In Black

Well, you wonder why I always dress in black,
Why you never see bright colors on my back,
And why does my appearance seem to have a somber tone.
Well, there's a reason for the things that I have on.
I wear the black for the poor and the beaten down,
Livin' in the hopeless, hungry side of town,
I wear it for the prisoner who has long paid for his crime,
But is there because he's a victim of the times.
I wear the black for those who never read,
Or listened to the words that Jesus said,
About the road to happiness through love and charity,
Why, you'd think He's talking straight to you and me.
Well, we're doin' mighty fine, I do suppose,
In our streak of lightnin' cars and fancy clothes,
But just so we're reminded of the ones who are held back,
Up front there ought 'a be a Man In Black.
I wear it for the sick and lonely old,
For the reckless ones whose bad trip left them cold,
I wear the black in mournin' for the lives that could have been,
Each week we lose a hundred fine young men.
And, I wear it for the thousands who have died,
Believen' that the Lord was on their side,
I wear it for another hundred thousand who have died,
Believen' that we all were on their side.
Well, there's things that never will be right I know,
And things need changin' everywhere you go,
But 'til we start to make a move to make a few things right,
You'll never see me wear a suit of white.
Ah, I'd love to wear a rainbow every day,
And tell the world that everything's OK,
But I'll try to carry off a little darkness on my back,
'Till things are brighter, I'm the Man In Black. (Johnny Cash)
Why you never see bright colors on my back,
And why does my appearance seem to have a somber tone.
Well, there's a reason for the things that I have on.
I wear the black for the poor and the beaten down,
Livin' in the hopeless, hungry side of town,
I wear it for the prisoner who has long paid for his crime,
But is there because he's a victim of the times.
I wear the black for those who never read,
Or listened to the words that Jesus said,
About the road to happiness through love and charity,
Why, you'd think He's talking straight to you and me.
Well, we're doin' mighty fine, I do suppose,
In our streak of lightnin' cars and fancy clothes,
But just so we're reminded of the ones who are held back,
Up front there ought 'a be a Man In Black.
I wear it for the sick and lonely old,
For the reckless ones whose bad trip left them cold,
I wear the black in mournin' for the lives that could have been,
Each week we lose a hundred fine young men.
And, I wear it for the thousands who have died,
Believen' that the Lord was on their side,
I wear it for another hundred thousand who have died,
Believen' that we all were on their side.
Well, there's things that never will be right I know,
And things need changin' everywhere you go,
But 'til we start to make a move to make a few things right,
You'll never see me wear a suit of white.
Ah, I'd love to wear a rainbow every day,
And tell the world that everything's OK,
But I'll try to carry off a little darkness on my back,
'Till things are brighter, I'm the Man In Black. (Johnny Cash)
06 fevereiro 2009
Anti Líbido

Poderíamos escrever um breve ensaio sobre outro"antis" que conhecemos: o anti-cristo, o anti-édipo... Também seria possível esboçar um tratado feminista sobre as diferenças de expectativas entre a langerie feminina e a roupa interior dos homens (dos metro-sexuais aos latinos típicos). Mas a fotografia e o título falarão por si só. Sem mais comentários.
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